
Tanque de areia
[ SINOPSE & APRESENTAÇÃO DA OBRA ]
Leia as 5 primeiras páginas aqui — Leia resenhas do livro aqui

Tanque de areia (clique aqui para comprar) é um romance de ficção científica inspirado nos últimos anos do Brasil. Nele, acompanhamos a jornada de Eduardo, um cidadão comum frustrado com os rumos da política brasileira. Sentado no sofá de casa, ele se ressente do casal de vizinhos gays e sente saudades de Martin, o antigo morador do apartamento da frente. Numa noite de bebedeira e solidão, Eduardo resolve instalar um dispositivo suspeito em sua moto e seguir o mesmo caminho do ex-vizinho. Acaba sendo transportado para um deserto, onde reencontra Martin e conhece Silas, um jovem debochado e irresponsável. Juntos, os três tentam sobreviver ao “mundo livre” e a um estranho grupo que os aprisiona e parece comandar o território.
Com referências diretas e indiretas a clássicos da ficção científica, como “De volta para o futuro”, “Planeta dos macacos”, “Mad Max” e, principalmente, “Não verás país nenhum” (livro de Ignácio de Loyola Brandão), Tanque de areia propõe uma reflexão sobre os modos diferentes de captura de mentes promovidos pela extrema direita nos últimos anos, e também sobre a capacidade de quem lê em empatizar com a parte humana das personagens. Até onde é possível se solidarizar com alguém que adere a discursos e práticas fascistas?
[ MATERIAIS ADICIONAIS & CONTEÚDO MULTIMÍDIA ]
[ NA MÍDIA & RESENHAS // 5 REGISTROS ]
“Sem spoilers, o livro é uma ficção punk que discute de forma ácida e empolgante questões difíceis de abordar, como masculinidades e a cooptação de jovens para o fascismo... O livro faz a gente pensar em como nossa humanidade começa a ser tomada de nós pela sociedade desde o momento em que nascemos.”
“TdA é uma estória punk – e é o que é: três acordes em progressão, um bando de babacas reacionários perdidos no tanque de areia construído pelo fascismo brasiliforme pra encaixotá-los do resto do mundo... TdA não é apenas uma coleção de idiotas, é a estória de sua relação, da masculinidade heterossexual e homoafetiva.”
“percebi que estava sem respirar fazia algum tempo... não há escapatória quando se mergulha no tanque de areia. há deleite. impermanencia. memória reconstruida. saudades do que fomos antes da terrível crise. respiro aliviada por estar do lado certo do muro.”
“O Brasil é tão louco que parece desafiar a ficção. Ainda bem que temos escritores que aceitam o desafio. Esse é o caso da novela "Tanque de Areia", de Danilo Heitor, que nos traz uma alegoria do pensamento da extrema direita brasileira e de personagens que infelizmente conhecemos bem... Um livro extremamente político, de leitura ágil e sagaz.”
“Uma fábula distópica psicodélica. Uma bad trip pelo deserto do agro. Um experimento literário sobre os delírios da direita. O agro é pop? O Danilo Heitor é punk. O livro é seco, sem firulas. A linguagem é simples e direta, papo de quebrada.”
Trecho da Obra: Tanque de areia
Fugimos pras grandes cidades
Bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade
Escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado
Quem é que vai pagar por isso?
I. Autogolpe
Eduardo abriu os olhos mas não conseguiu ver nada, a vista impossibilitada por aquele clarão amarelo-esbranquiçado. Começou a doer. Fechou os olhos de novo e passou a tatear o chão onde estava caído. Sentiu escorrer por entre os dedos uma areia fina, que não parecia ser de praia, e esperou alguns minutos até controlar a respiração para tentar outra vez. Devagar, um de cada vez, abriu primeiro o olho direito e, logo em seguida, o esquerdo.
Dessa vez não doeu.
***
A campainha tocou bem na hora do início do jogo. Nove e meia da noite, que caralho, quem pode ser? Calçou o chinelo e desceu sem muita pressa, ao contrário de quem quer que fosse, que em menos de trinta segundos já tinha afundado o dedo no botão de novo. Abriu a porta meio puto e era entrega, pizza, um roteiro que ele já conhecia bem.
— Você errou de campainha, é pro apartamento 12, eu moro no 11.
O entregador olhou para o interfone, como todos faziam, e começou a dizer o que todos diziam:
— É que esse um parece…
— …um dois, eu sei. Mas não é. Licença.
Fechou a porta bruscamente enquanto ouvia o rapaz tocar o número certo, e acelerou o passo para evitar encontrar o vizinho na escada. Não deu: cinco degraus antes do fim, a porta se abriu, e aquele homem, maquiado como sempre, olhou para ele com a mesma falsa surpresa de todas as outras vezes.
— Ai, tocaram errado de novo, é?
— É — balbuciou Eduardo, sem nem olhar para a cara do rapaz.
— Que chato — respondeu o jovem do alto do salto plataforma, em um tom meio deboche meio que-se-foda.
Eduardo respirou fundo e seguiu pelo corredor até seu apartamento, a raiva represada no peito. Da janelinha da porta do número 12, observando com um sorrisinho irônico na cara, o outro homem do casal de vizinhos acenou para ele, num tchauzinho irritante o suficiente para fazê-lo bater a porta com força.
***
Para qualquer um dos lados que olhasse, só via areia. O horizonte, em todos os seus 360 graus, era um imenso deserto. A cabeça doía, graças à ressaca. Ao longe, podia ver os grãos se levantarem e formarem pequenos redemoinhos, que logo se desfaziam para ser deserto outra vez.
Eduardo sentiu a boca seca e forçou a vista enquanto girava o corpo, na expectativa de encontrar qualquer ponto de referência. Na metade do giro, viu algo que parecia se mover a quilômetros de distância, talvez três, talvez vinte, impossível ter certeza. O calor o fazia ver ondas, como se o mundo à sua frente estivesse por trás de uma cortina transparente e esvoaçante. Completou a rotação em torno de si mesmo e não encontrou mais nada. Acima de si, implacável, o sol brilhava em um ângulo de 45 graus, fazendo reluzir todo o deserto ao redor e esquentar sua cabeça, carente de fios há muitos anos.
Sem escolha, Eduardo arrancou da cintura o moletom amarrado, transformou-o em um turbante improvisado e se pôs a caminhar em direção ao ponto móvel, que parecia se afastar lentamente.
Seria preciso apertar o passo.
***
Sentou-se de volta no sofá e encarou o jogo na televisão 4K como quem olha para o nada, o calor de quase 50ºC fazendo-o suar igual a um porco. A concentração tinha ido embora, aquela porra de casal desgraçado conseguira outra vez arruinar sua noite. Não bastassem as festas, todo maldito sábado o prédio cheio de homens besuntados se beijando, tinha que aguentar o deboche velado no corredor toda vez que encontrava com um dos dois. Pior quando eram os dois. O que se tornou esse lugar nos últimos anos?, pensou, enquanto lutava contra a imagem dos vizinhos se pegando, que teimava em se formar na cabeça. Se era incômodo encarar esse tipo de comportamento na rua, com certeza era cada vez mais difícil conviver com “eles” no mesmo prédio.
Deixava-se levar pelos pensamentos, o peito quase não conseguindo mais conter a raiva, quando percebeu que o narrador gritava um gol. Trouxe o foco de volta para o jogo e já estavam perdendo de 1 a 0. Olhou para a poltrona ao lado, vazia, e sentiu saudades de Martin.
Porra, aquilo sim que era vizinho.
***
Não sabia se tinha caminhado por trinta minutos ou duas horas, mas o corpo já começava a acusar sinais de cansaço e desidratação, aguçados pelo excesso de álcool consumido. Sentiu a batata da perna direita ameaçar uma cãibra, então parou para um leve alongamento. A boca, agora, além de seca, parecia áspera, como se tivesse dado uma colherada naquela areia toda, imagem que o fez visualizar no deserto um gigantesco e interminável prato de farofa. Nunca tinha gostado muito de farofa.
Enquanto se alongava e tentava desembaralhar na mente o gosto da areia e a memória desagradável da farofa, olhou com mais calma para o ponto que se movia, agora já com alguma forma. Parecia um corcunda, um homem com uma saliência estranha nas costas, e a julgar pela proximidade pôde perceber que o perseguido viajava mais devagar do que ele.
Terminou o alongamento, enxugou o suor da testa — como se adiantasse alguma coisa — e seguiu viagem rumo ao homem-ponto-saliência.
***
No intervalo do jogo, os caras já estavam ganhando de 2 a 0. Merda de time, não ganha uma nem em casa, esbravejou sozinho. Entre a resignação e o lamento, levantou-se para pegar a sétima cerveja, a essa altura mais do que um simples alívio para o calor desgraçado, e ouviu risos altos vindos do apartamento da frente, os dois homens se divertindo sabe-se lá com o quê.
Abriu a porta da geladeira e percebeu, no fundo da prateleira de cima, a garrafa de biocombustível esquecida ali há meses. Lembrou do tempo do tricampeonato, Martin morando no apartamento vizinho, as noites embriagadas escutando as melhores do rock’n’roll e jogando videogame depois das partidas, todos os joguinhos nostálgicos que remetiam à adolescência e ajudavam a esquecer um pouco a frustração de terem chegado aos “enta” sem grandes conquistas. Ainda não tinha se conformado com o seu desaparecimento. Onde teria ido parar?
Ela diz pra mim “seja um bom rapaz
Pratique algum esporte, tenha bons ideais”
Afinal de contas o fim do mundo não é nenhum fim de mundo
E se for, descanse em paz
Voltou para a sala cantarolando a música preferida de Martin pensando no amigo e no processo todo até o sumiço. Lembrava perfeitamente do dia em que o viu chegar depois do trabalho, puto da vida, contando da demissão por ter feito uma brincadeira com a recepcionista. Aquela puta, gritava, agora é crime fazer piadinha com cabelo! Dali foi só ladeira abaixo. Martin ficou meses procurando emprego, e repetindo o mesmo roteiro: não encontrava nada, culpava o mundo e terminava a noite bêbado no apartamento de Eduardo. Arrastou o vizinho de volta para casa muitas vezes. Segurou-o para evitar que fosse para cima da vizinha de cabelos curtos do andar de cima, aquela lésbica debochada, algumas outras.
Um dia, Martin desistiu. Mal saía do apartamento. Por algumas semanas ainda aparecia para assistir aos jogos, mas sempre que Eduardo tentava levar o assunto para além do futebol o vizinho desconversava. O time acabou caindo para a Série B, e Martin pareceu ir junto para o limbo. Ficava dias trancado no quarto, escavando conversas na deep web, lendo sobre conspirações, comprando livros e objetos que falavam sobre todo tipo de maluquice: alienígenas, répteis gigantes disfarçados de humanos, vírus criados em laboratório para transformar todo mundo em gay, controle mental a partir do chip dos celulares. Martin sempre havia sido fácil de manipular, mas quem costumava fazer o papel de direcioná-lo, às vezes para livrá-lo de enrascadas, às vezes para proveito próprio, era Eduardo. Àquela altura, Martin estava fora de controle. Acreditava em tudo que lia online e vivia cada vez mais distante da realidade.
Até a sexta-feira fatídica em que bateu à porta de Eduardo carregando nas mãos uma garrafa de biocombustível, um pacote e um manual de instruções.
***
Eram horas de caminhada, com certeza, porque o sol já tinha deixado o leste, passando por cima da cabeça de Eduardo e começado a se dirigir para sua morte, a oeste. A cãibra tinha se tornado uma dor distante, agora compartilhada com a outra perna, e a desidratação alcançava um ponto tão severo que fazia Eduardo delirar sobre a forma do homem que perseguia: às vezes tinha a saliência nas costas, às vezes não, às vezes aumentava de tamanho e às vezes sumia. Pelo menos já estava consideravelmente perto. Eduardo resolveu gritar para chamar sua atenção.
Juntou todas as forças que tinha e concentrou-as no pulmão.
— Ei! — Sua voz saiu rouca, mas firme.
O homem à sua frente parou e olhou para trás. Eduardo acenou com as duas mãos e teve a certeza de que foi visto quando o homem passou a correr para longe. Sem pensar muito e tomado pela adrenalina do contato, Eduardo correu atrás, os músculos pedindo arrego mas o cérebro ditando a marcha, e conforme se aproximava percebeu estar muito mais rápido que o perseguido.
A poucos metros de distância, a saliência nas costas explicou o motivo da diferença de velocidade: o homem carregava, amarrada nas costas, uma porca viva, rosa, que parecia despertar aos poucos de um sono profundo e grunhia com o solavanco da corrida.
