danilo heitor
[ 12 de junho de 2026//5 MIN DE LEITURA//940 PALAVRAS ]

Do amor

Porque não sei existir sem ele

Nas Olimpíadas de 1996, eu tinha 13 anos, quase 14. Chegando da escola, a diversão era ligar a TV e assistir todo e qualquer esporte que estivesse passando. Em um deles, descobri Dominique Moceanu. Ela tinha 14 anos e era uma das ginastas estadunidenses nos Jogos Olímpicos.

A ginasta Dominique Moceanu em collant branco e vermelho equilibrando-se sobre uma perna na trave de equilíbrio durante apresentação olímpica.

Talvez pela idade (a dela e a minha), me apaixonei por Dominique. Foi a primeira e única paixão famosa que tive. Pesquisei sobre ela, acompanhei cada movimento durante as Olimpíadas e me imaginei casando com ela, morando nos EUA, tendo uma rotina de subúrbio típica dos muitos filmes que passavam nas tardes da adolescência. Mais de dez anos depois, já com acesso mais constante à internet, lembrei que ela existia e descobri que estava casada e com três filhos. A essa altura, eu já não acreditava mais no amor da mesma forma. Mesmo assim, de alguma maneira, doeu. Havia outra pessoa, outro homem, vivendo a vida que eu tinha imaginado para mim aos 13 anos.

Lembrei de tudo isso quando sentei para escrever esta edição da newsletter, que faz parte de mais um newsletteraço organizado pela comunidade brasileira de newsletters. A ideia inicial era que escrevêssemos uma carta para uma personagem por quem fôssemos apaixonados, mas depois foi ampliada para qualquer assunto relacionado ao amor. Apesar de, desde os 18 anos, ter tido apenas três relacionamentos monogâmicos e, hoje, não ter o menor interesse nessa forma de hierarquizar meus amores, até hoje declarações de amor me fazem sorrir. Muitas delas, apesar disso, não são entre pares românticos. São entre amigos, entre familiares, entre pessoas e animais e assuntos e ambientes e espaços que despertam o amor.

Homem de camisa floral beijando carinhosamente no rosto outro homem de barba e cabeça raspada.

O amor romântico pode ser muitas coisas. A forma como aprendemos a cultivá-lo desde crianças é direcionada para o que hoje entendo ser uma prisão. Um lugar onde há muitas cobranças, muitas exigências de performance e pouco espaço para a liberdade. Isso não quer dizer que eu questione a minha paixão juvenil por Dominique, que a considere um erro, uma bobagem ou que ache que aquilo não era amor. Neste dia comercialmente inventado para celebrar a monocultura, não vou cair na tentação de tentar definir o que é o amor. Prefiro apenas dizer que amei e ainda amo, pessoas humanas, não humanas, atividades, situações, memórias. Inclusive a do Danilo de 13 anos apaixonado por uma garota quase da mesma idade que só existia durante breves minutos na televisão, por menos de um mês. Se hoje essa ideia de amor não me interessa mais, ela fez parte da construção de todas as outras formas de amor que se movem em mim. Me movimentam. Me fazem continuar tendo vontade de amar.

Também não vou fazer deste texto uma defesa chata da não monogamia. Não é sobre isso, e se fosse eu indicaria as muitas pessoas que pensam, escrevem e principalmente falam sobre isso por aí. Elas são muito melhores que eu nisso. Aqui, no meu cantinho, quero só celebrar os amores que me ocupam. Minha mãe, minha irmã, meus amigos, as namoradas, as parcerias efêmeras, as de sempre, as que me aturam nos piores dias, e que me levantam também, meus gatos, meus cachorros. Não conseguiria eleger apenas um para ser o centro da vida. Não faz sentido. Nunca fez: a vida, não só a minha, precisa de todas as peças do quebra-cabeça que de alguma forma encaixam na minha para acontecer.

Parafraseando bell hooks, amar é promover o bem-estar seu e do outro. Termino, então, endereçando esta (não? anti? quase?) declaração a todos os amores, os que foram, os que ficaram e os que ainda não vieram. À vocês, não ofereço flores, ou o mundo, ou o universo, mas prometo estar sempre aqui. Até me tornar saudades.

Aproveito também para, neste 12 de junho, celebrar o quinto aniversário de um deles: Abigail, a cachorra mais bonita do Brasil.

Que o amor seja mais verbo e menos substantivo.


Essa é mais uma edição de newsletteraço! Escritores do grupo Newsletter BR se unem para publicar, em um mesmo dia, textos sobre um assunto em comum. O tema da vez é Dia dos Namorados. A proposta é escrever sobre algum assunto pelo qual somos apaixonados! O tema é livre desde que tenha muito amor envolvido!

Confira a lista de participantes:


Minhas comunidades


Antes do fim…

…de semana: se você está em SP, vá ao segundo encontro do Laboratório de História Tática, neste domingo, às 14h, lá no Bar da Nise, na Luz.

…da vida: assista a série Half Man, sobre como a masculinidade pode destruir homens de maneiras diferentes.

…do mundo: leia a Trilogia do amor, de bell hooks (eu ainda não terminei).


Antes do fim se propõe a ser um espaço de debate. Então, se qualquer trecho desta edição te deixou com vontade de falar alguma coisa, é só responder este email ou comentar na página, caso você esteja lendo direto no Substack.

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E se quiser conversar comigo em outras redes, você tem esta opção, esta outra e o meu email.

Até a próxima edição!


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[ SOBRE O AUTOR ]

Danilo Heitor

Danilo Heitor (São Paulo, 1982) é professor, editor e escritor. Autor de oito livros entre contos, crônicas, poemas e ficção científica, foi finalista da Odisseia de Literatura Fantástica 2024, na categoria narrativa curta de ficção científica.

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