danilo heitor
[ 7 de janeiro de 2026//5 MIN DE LEITURA//930 PALAVRAS ]

Há presentes que vem sem embrulho

Ou sobre como a missão de presentear alguém pode se tornar um presente

Escrever uma carta para alguém desconhecido é sempre uma missão difícil. Nesse caso, de partida, ela me pareceu mais difícil ainda por conta do assunto da newsletter do meu amigo secreto, sobre o qual eu tenho pouco contato. Minha companheira, artista visual e arte-educadora, adora fazer letrinha, como nós brincamos, e eu admiro muito as letrinhas dela, mas para além disso meu conhecimento no assunto é quase nulo.

Cartaz tipográfico pintado à mão com letras laranjas e contorno vermelho com a pergunta: 'COMO SE ORGANIZA UM MOTIM?'.

Ao começar a ler os posts do Cadu Carvalho na Tipo Aquilo, a dificuldade desapareceu. Logo de cara, no primeiro deles, encontrei uma imagem que eu utilizo a vida inteira para dar aula, não de tipografia, mas de cartografia: a famosa obra do cachimbo de René Magritte. Lendo a edição da Tipo Aquilo sobre David Lynch, curiosamente um diretor que não me encanta (lá vem pedra), aprendi um pouco mais sobre La trahison des images, e já fui me sentindo em casa na casa do Cadu.

Pintura 'A Traição das Imagens' de René Magritte, retratando cachimbo de madeira acompanhado da inscrição 'Ceci n'est pas une pipe.'.

A edição seguinte a me chamar a atenção foi a que relaciona tipografia e eleições. De cara, me lembrei de duas coisas: o filme No e este vídeo sobre como fazer uma propaganda eleitoral. Nenhuma das duas é sobre tipografia, mas ambas tocam num ponto em comum com a discussão levantada pelo Cadu: uma parcela enorme das campanhas eleitorais depende das escolhas de forma, e não de conteúdo. Um Chile cheio de felicidade, artistas engajados, pessoas altas, brancas e bem nutridas era “melhor” pra derrubar Pinochet do que o Chile real, latino-americano, pobre e desigual, assim como uma determinada fonte pode transmitir mais ou menos agressividade, segurança, modernidade, progresso do que outra. De tudo que li, a única coisa que reconheci foi a relação entre fontes manuscritas e candidatas mulheres. Ou seja: a propaganda eleitoral carrega signos e intenções que não se percebe logo de cara, e sempre existe um pouco mais de conhecimento ao seu alcance para desvendá-la.

Logotipo com o nome 'Dilma' em letras brancas arredondadas com estrela vermelha sobre a letra i, e a palavra 'PRESIDENTA' abaixo sobre fundo vermelho.

Não é sobre em quem votar, é sobre em quem fazem a gente imaginar que está votando

“Saí” da newsletter do Cadu com esse pensamento: como são amplos e cheios de nuances os campos do conhecimento humano. Às vezes, uma coisa que você sequer deu atenção a vida toda tem uma grande parcela de responsabilidade por decisões enormes que você tomou — e aqui nem estou falando das eleições, que, pra mim, são variações mais ou menos ensaiadas de um teatro farsesco combinado há muitas décadas. Não, não estou defendendo uma ideia superficial de antipolítica: pelo contrário, me interessa muito mais a política do cotidiano, de baixo para cima e diretamente entre os envolvidos, nos movimentos sociais, cursinhos populares e organizações suprapartidárias. Mas fui para longe do assunto.

Voltando a ele, impossível não lembrar, ao ler as edições da Tipo Aquilo, deste post da Paula Cruz sobre racismo tipográfico. Fiquei com ele na cabeça por muito tempo, e conforme fui adentrando os debates promovidos pelo Cadu lembrei mais e mais dele. Essa passagem aqui, especificamente, resume muito do meu sentimento:

Desenhar letras é um ato libertário. Letras podem se parecer com qualquer coisa (ou com coisa alguma!) e por isso mesmo é o tipo de desenho que mais abre caminhos. Mais do que limitar as possibilidades da tipografia, condená-la a estereótipos e ferramentas colonialistas, é preciso que sonhemos novas possibilidades de mundos. E isso tem tudo a ver com desenhar letras.

Sabe aquele papo de política do cotodiano? Pois é, esse foi o jeito que meu cérebro deu de amarrar esta breve reflexão voltando a ele. Saímos do assunto, mas o assunto nunca sai da gente.

Miniatura do vídeo do YouTube

Já assistiu o o documentário Pixo? Tipografia, cultura de baixo pra cima, política do cotidiano: tá tudo aí.

Encerro este breve presente de amigo secreto com um pedido de desculpas pelo enorme atraso, e um agradecimento tão grande quanto ao Cadu, por ter me feito voltar a escrever a Antes do fim. Não só isso: depois de um burnout cujos sintomas só chegaram agora no fim do ano, encontrar encanto, beleza e interesse em um assunto que eu tinha apenas tangenciado durante toda a vida foi reconfortante.

Na tentativa de escrever um presente, acabei eu inscrito em um.

Com carinho,

Danilo Heitor


Meus projetos

Neste começo de ano, vou aproveitar pra falar da editora País Nenhum, que comecei ano passado com a expectativa de publicar pessoas e textos abaixo, à esquerda e desde o Sul Global.

Logotipo da editora País Nenhum em traço preto sobre fundo branco, com um círculo tracejado à esquerda e o texto: 'PAÍS NENHUM - VOZES DO SUL GLOBAL'.

O logo da editora é da Marília Carvalho (que não é prima do Cadu)

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Antes do fim

Para 2026, meu projeto é conseguir viver de coisas em torno da escrita. Não vai ser fácil, mas entre isso e voltar para o burnout, prefiro correr esse risco.

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[ SOBRE O AUTOR ]

Danilo Heitor

Danilo Heitor (São Paulo, 1982) é professor, editor e escritor. Autor de oito livros entre contos, crônicas, poemas e ficção científica, foi finalista da Odisseia de Literatura Fantástica 2024, na categoria narrativa curta de ficção científica.

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