Ladeira
Era uma sexta-feira, dia em que não trabalho. Nesta, entretanto, tive um passeio para um parque temático com dois estudantes da escola. A previsão de retorno era 18h chegando na escola.
O ônibus, cheio de estudantes e professores de diversas escolas da mesma diretoria de ensino, voltou tranquilo na estrada. Alguns estudantes dormiam, descansando da alegria. Outros trocavam informações sobre seus grêmios — o passeio era apenas para gremistas. Chegamos em São Paulo depois das 18h. Trânsito. Perto do primeiro ponto de parada — a nossa escola era o segundo e último — o motor superaqueceu. O ônibus encostou, travando toda a avenida de mão dupla típica de bairros periféricos da metrópole, apenas uma faixa de cada lado e uma subida — para nós — cheia de curvas.
O coordenador da excursão pegou o celular. É um ex-professor da minha escola. Nunca trabalhamos juntos, mas jogamos bola meses atrás contra o time do nono ano. Ele veio até a escola só para isso. Depois descobrimos que ele foi fundador de um dos times de várzea em que já joguei, e desde então nossos papos ganharam intimidade. Ele me chama de Dan. É estranho, mas eu gosto. Só minha família me chama de Dan. Do outro lado da linha, o contato com o diretor regional, para saber o que fazer, não vem.
Os professores das outras escolas resolvem descer do ônibus. Faz frio lá fora, mas dentro se tornou uma sauna. Chamo meus dois estudantes e faço o mesmo. Começa a garoar. Um dos professores decide não esperar autorização e pede um carro de aplicativo. Os outros fazem o mesmo. Eu também. O ônibus quebrado causa trânsito. O primeiro carro desiste a poucos metros. O segundo vem. O coordenador conversa com o motorista para pedir que leve também sua esposa e a filha pequena — comigo e meus estudantes, éramos cinco. O motorista desconfia, mas aceita. O coordenador me agradece. Ele fica lá para resolver o que falta.

Depois de sair do trânsito que o ônibus produziu, o motorista puxa papo. Descobre que sou professor, eles estudantes, esposa e filha do coordenador. E se abre.
— Você precisa salvar nossos meninos, professor.
Salvar de quê?
— Esse país não tem mais jeito.
Me preparo para o pior.
— Outro dia tive que dar voz de prisão para um policial lá na Lapa.
Isso eu não esperava.
Ele conta a história. Admiro sua coragem. Ele continua.
— Tem Proerd na sua escola? Se tiver, entra lá e confronta os policiais. Diz pra turma que a polícia mata pobre e preto todo dia na quebrada.
Não sei muito bem como responder. Estou surpreso. Na escola, nunca vi Proerd — ainda bem. Conto para ele que tenho um livro escrito que é uma distopia com um matador de policiais. Ele vibra.
Chegamos.
— Gostei de você, professor!
Sorrio. São quase 20h. Passei as últimas quatorze horas em função da escola.
Depois que a última mãe busca sua criança, me despeço do segurança e pego o caminho de casa.
Na segunda-feira, ao retornar para a escola, duas PMs estão sentadas na sala dos professores.
Lembro do motorista. Da coragem dele. E do pessimismo.
Não dou dez anos para o Brasil, professor.
Aumenta minha vontade de abandonar de vez a sala de aula.

Era 2017 quando comecei na escola pública. Já tinha 9 anos de educação em outros espaços. Em 2022, saí pela primeira vez, antes de estourar. A cabeça estava no limite. Voltei há um ano e meio. Nunca seguro sobre esse retorno. Hoje, cada dia mais certo de uma saída definitiva.
Amo dar aula. Amo estar em um espaço de ensino. Mas não aguento mais todas as violências, todos os atravessamentos cotidianos da escola pública. Eles me fazem ser um professor pior. Uma pessoa pior. Não quero, nem consigo, apontar aqui tudo que está pegando. Vivemos uma gestão de extrema-direita, depois de mais de uma gestão liberal. A estrutura foi sendo paulatinamente desmontada. Caminhamos para algo tão distante do que eu aprendi e construí como educador que me sinto encurralado. Como um rato em um labirinto sem saída e sem recompensa.
A inclinação da ladeira da educação aumenta a cada dia. E o motor do meu ônibus está bem perto de superaquecer.
Ainda que, de vez em quando, aconteça um estudante.
— Professor, ouvi dizer que o senhor é anarquista.
— Quem disse isso?
— A professora Ana. E ela é autonomista.
— É, sou sim.
— Eu também sou, professor!
— Ah, é? — o sinal do intervalo toca. — Depois a gente conversa mais disso, então.
G., sexto A. Autista com hiperfoco em alguns assuntos. Esse é novo.

No fim da segunda aula ele voltou.
— Professor, eu sei a base do anarquismo. É meio que contra a hierarquia.
— Isso. Mas me diz uma coisa, por que você se considera anarquista agora?
Silêncio.
— Você não sabe?
— Eu sei o símbolo. É um A e um círculo.
— E tem a bandeira negra também.
— Verdade!
— Mas e a sua cidade, não vai fazer? Faz uma cidade anarquista.
G. arregala os olhos e volta para sua mesa, de semblante pensativo. A tarefa era criar uma cidade imaginária. Acaba não conseguindo. Fico de apresentar a ele meu país anarquista imaginário. E volto para casa, nesse dia, com um pouco menos de desesperança no futuro.
O meu. E o dele.
Esta edição de Antes do fim faz parte do newsletteraço de agosto, organizado pela comunidade de newsletters brasileira para incentivar a escrita. O tema podia ser febre ou retorno.

Confira quem mais participa:
Júnior Bueno escreve a cinco ou sei coisinhas
Nathan Elias-Fernandes escreve a PunkYoga
Leon Nunes escreve a O Substack de Leon
Marcela cor escreve a Eu não digo é nada
Wellington Mitrut escreve a Blog do Mitrut
Victória Haydée escreve a resenhas que ninguém pediu
Camila Perlingeiro escreve a O que eu queria ter dito
Lívia Reis de Sousa escreve a Colcha de Retalhos
Patricia escreve a Uma com a Terra
Lethycia Dias escreve a Uma mulher que escreve
Daniela Chaves escreve a por detrás
Paula maria escreve a Te escrevo cartas
Gabriele Duarte da Silva escreve a Bom Proveito
Meus projetos
Antes do fim…
…de semana: se você está em SP, visite a FliSampa, no Centro Cultural São Paulo, que vai até sábado, 23/08.
…da vida: leia o livro da Raquel Setz, Desfiguração. Contos atravessando o horror de ser mulher neste mundo.
…do mundo: adote um cachorro adulto. Os abrigos estão cheios deles, todo mundo só quer filhotes e os adultos acabam passando o fim da vida quase inteira confinados. Além de que cachorro adulto não destrói sua casa.
Antes do fim se propõe a ser um espaço de debate. Então, se qualquer trecho desta edição te deixou com vontade de falar alguma coisa, é só responder este email ou comentar na página, caso você esteja lendo direto no Substack.
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Até a próxima edição!
Danilo Heitor
Danilo Heitor (São Paulo, 1982) é professor, editor e escritor. Autor de oito livros entre contos, crônicas, poemas e ficção científica, foi finalista da Odisseia de Literatura Fantástica 2024, na categoria narrativa curta de ficção científica.
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